O País do futebol está sem título há 24 anos. Da conquista do pentacampeonato, em 2002, à eliminação precoce em 2026

Por Luciane Farias

O país do futebol já não chega às finais há muito tempo

O Brasil foi eliminado nas oitavas de final da Copa do Mundo de 2026. O resultado aumenta uma estatística que começa a incomodar até os torcedores mais otimistas. A Seleção Brasileira não disputa uma final de Copa do Mundo desde 2002, quando conquistou o pentacampeonato. Já são 24 anos sem chegar à decisão do torneio mais importante do futebol mundial. Para um país que construiu sua identidade esportiva em torno desse esporte, é um período longo demais.

Conquista do pentacampeonato em 30 de junho de 2002. Yokohama, Japão.

Durante décadas, o Brasil foi sinônimo de futebol. Era a seleção que todos queriam enfrentar por último. Revelava craques que mudavam a história do esporte e encantavam o planeta. Hoje, continua sendo chamado de “o país do futebol”, mas já não consegue transformar esse título simbólico em resultados dentro de campo.

Brasil erguendo a taça em solo americano em 1994. O pentacampeonato conquistado em 17 de julho de 1994, no Rose Bowl, em Pasadena, Califórnia.

Nenhuma torcida faz o que o brasileiro faz

Se dentro das quatro linhas a Seleção decepcionou, fora delas aconteceu exatamente o contrário. A torcida brasileira protagonizou um dos maiores espetáculos desta Copa do Mundo. As imagens das ruas tomadas de verde e amarelo, das caravanas, das festas e da energia dos brasileiros viralizaram nas redes sociais e foram destaque na imprensa internacional.

Quem viveu esta Copa do Mundo nos Estados Unidos, um dos três países-sede ao lado de México e Canadá, percebeu algo muito interessante. Os brasileiros praticamente transformaram algumas cidades americanas em uma extensão do Brasil. Restaurantes lotados, ruas tomadas por torques, bandeiras nas janelas, músicas, batuques e uma alegria que poucas torcidas conseguem reproduzir. O futebol pode até não ter dado o resultado esperado, mas a torcida brasileira venceu, mais uma vez, no quesito paixão.

Um aniversário, um cinema vazio e um choque de culturas

Vou dividir com vocês uma história bastante curiosa que vivi durante esta Copa.

No dia 29 de junho, data do jogo do Brasil, um amigo americano me convidou para comemorar meu aniversário. Ele queria me entregar um presente e perguntou se poderíamos nos encontrar às uma da tarde. O detalhe é que, para ele, aquela era apenas mais uma segunda-feira comum, na qual era meu aniversário e ele estava e folga. Em nenhum momento passou pela cabeça dele que existia um jogo da Seleção Brasileira naquele horário.

Quando expliquei que o Brasil jogaria pela Copa do Mundo, ele ficou surpreso. Mesmo assim, resolvi manter nosso encontro porque ele é uma pessoa importante para mim. Pensei que poderia descobrir o resultado depois.

Fomos assistir a Toy Story. A sala de cinema tinha apenas nós dois enquanto milhões de brasileiros acompanhavam a partida. Confesso que aquela cena ficou marcada na minha memória. Foi impossível não perceber como a relação entre brasileiros e americanos com o futebol é completamente diferente. Talvez, sem perceber, eu também esteja começando a absorver um pouco dessa cultura americana, onde o futebol ainda ocupa um espaço muito menor na vida das pessoas.

Futebol também é marketing

Existe outro aspecto que merece reflexão. O futebol moderno deixou de ser apenas desempenho dentro de campo. Hoje ele também é uma poderosa indústria de marketing.

Temos jogadores que movimentam milhões de dólares em contratos publicitários, acumulam milhões de seguidores nas redes sociais e se tornaram verdadeiras marcas globais. Mas fama não vence jogo.

Muitos torcedores questionaram convocações de atletas que passaram boa parte da temporada lesionados ou que chegaram sem ritmo de competição. Outros defendem que havia jogadores vivendo momentos melhores em seus clubes e que poderiam ter recebido uma oportunidade. Independentemente de quem esteja certo, a discussão mostra que marketing e desempenho esportivo nem sempre caminham juntos.

Foto do dia da convocação da seleção brasileira de futebol

No Brasil existem mais de 200 milhões de técnicos

Se existe um campeonato em que o brasileiro continua invicto, é o da criatividade.

Depois da eliminação, as redes sociais foram tomadas por memes, montagens, vídeos e análises. Uns culparam o técnico. Outros responsabilizaram determinados jogadores. Houve quem colocasse a culpa no calendário, na preparação física e até brincasse responsabilizando um jogador norueguês, transformando tudo em humor.

O futebol desperta um fenômeno curioso no Brasil. Somos, oficialmente, mais de 200 milhões de técnicos de futebol. Cada brasileiro tem sua escalação ideal, sua estratégia perfeita e uma explicação diferente para cada derrota. Talvez seja justamente essa capacidade de transformar até a frustração em criatividade que faça parte da nossa identidade.

O país de Pelé ainda procura um novo protagonista

O Brasil continua sendo a única seleção pentacampeã do mundo. Foi aqui que nasceu Pelé, considerado por muitos o maior jogador da história do futebol. Também revelamos nomes como Garrincha, Romário, Ronaldo, Rivaldo, Ronaldinho Gaúcho, Kaká e tantos outros que marcaram gerações.

Nossa história é gigante e ninguém pode apagar isso.

Mas o futebol vive do presente. E o presente mostra um Brasil que já não assusta como antes. Continuamos sendo chamados de país do futebol, mas convivemos com uma realidade que incomoda: há 24 anos não disputamos uma final de Copa do Mundo e o último título mundial também ficou em 2002.

A derrota também teve impacto fora do estádio

Para quem vive nos Estados Unidos, a eliminação teve um efeito que vai muito além do esporte.

Durante semanas, restaurantes brasileiros, bares, eventos, caravanas, lojas e diversas ações voltadas para a Copa movimentaram comunidades inteiras. Cada jogo era uma oportunidade de reunir famílias, amigos e brasileiros que vivem longe de casa.

No dia da eliminação, a cena era de silêncio. Vi adultos chorando, crianças inconformadas e adolescentes tentando entender como aquele sonho havia acabado tão cedo. Para quem mora fora, a Copa representa muito mais do que futebol. É uma oportunidade de sentir o Brasil novamente, de ouvir nossa música, vestir nossa camisa e compartilhar um pedaço da nossa identidade com quem está longe de casa. Quem veio apenas para acompanhar a competição também viveu essa experiência intensamente.

O futebol passa. O brasileiro continua.

A derrota machucou. Não há como negar.

O brasileiro esperava mais dessa Seleção e tem motivos para cobrar mudanças. Espera uma equipe mais preparada, mais competitiva e mais conectada com a tradição do futebol brasileiro.

Mas existe algo que nenhuma eliminação consegue derrotar: o torcedor brasileiro.

Tenho certeza de que, na próxima Copa, ele estará novamente nas arquibancadas, nas ruas, nos bares e nos restaurantes. Vestirá a camisa da Seleção, viajará quilômetros, reunirá amigos e voltará a acreditar.

Porque essa talvez seja a maior qualidade do povo brasileiro. A capacidade de recomeçar. De transformar esperança em festa. De continuar acreditando, mesmo depois das maiores decepções.

O Brasil saiu da Copa. Mas a paixão do brasileiro pelo futebol continua invicta.

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