Tem uma coisa curiosa acontecendo em Orlando.
A cidade que o mundo inteiro conhece pelos parques tem, a poucos minutos do Downtown, um dos bairros mais autênticos e densos culturalmente de toda a Flórida. Com mais restaurantes reconhecidos pelo Guia Michelin do que qualquer outro distrito da cidade. Com murais que tomam fachadas inteiras. Com uma comunidade asiática que está há cinquenta anos construindo raízes reais nessa cidade.
E a maioria das pessoas que passa semanas em Orlando nunca ouviu falar em Mills 50.
Esse é exatamente o tipo de coisa que a A.Collection existe para contar.
O nome vem do cruzamento. O bairro, da história.
Mills 50 se chama assim porque fica na esquina de Mills Avenue com a State Road 50, a Colonial Drive. É um daqueles nomes que não prometem nada e entregam tudo.
O bairro começou a tomar forma nos anos 70, quando imigrantes vietnamitas que chegaram ao sul dos Estados Unidos após o fim da Guerra do Vietnã foram construindo comunidade em Orlando. Abriram mercados. Depois restaurantes. Depois mais mercados. A cidade cresceu em volta. O bairro ficou.
“Cinquenta anos atrás foi a queda de Saigon”, conta Ricky Ly, fundador do TastyChomps.com e uma das maiores referências em gastronomia de Orlando. “Depois do colapso do governo sul-vietnamita, muitos vietnamitas se tornaram refugiados e muitos se estabeleceram em Orlando.” National Geographic
O que começou como uma rede de apoio comunitário virou, décadas depois, um ecossistema gastronômico e cultural sem paralelo na cidade.
O bairro com mais Michelin de Orlando. Por uma margem considerável.
Mills 50 tem mais restaurantes reconhecidos pelo Guia Michelin do que qualquer outro distrito ou cidade da região de Orlando. Não é detalhe, é uma inversão completa da narrativa que a cidade carrega. Orlando Visitor
Enquanto o turismo convencional empurra as pessoas para a International Drive, os inspetores do Michelin estavam sentados em cadeiras de plástico em mercados convertidos, comendo banh mì feito à mão e ramen preparado com obsessão de omakase.
O bairro acumula múltiplas distinções, incluindo o único Green Star de Orlando, no Kaya, pelo seu compromisso com práticas sustentáveis, além de Bib Gourmands como Bánh Mì Boy, Zaru, EDOBOY, UniGirl e Z Asian, e uma lista de restaurantes recomendados que inclui Shin Jung, Tori Tori e Sticky Rice. National Geographic
O Mills Market merece menção especial. O antigo supermercado Tien Hung foi reimaginado por Johnny Tung e hoje abriga quatro restaurantes reconhecidos pelo guia. “Concebemos espaços pequenos, comandados por chefs, onde você pode passar de um para o outro experimentando sabores e culinárias diferentes de toda a Ásia”, diz Tung. “Por baixo disso, é algo muito pessoal: é sobre legado de família, honrar nossas raízes, e criar algo do qual Orlando possa se orgulhar.” Yahoo!
É essa camada, a do legado, a da identidade, que a maioria dos guias turísticos não consegue capturar.
Não é só comida. É o que a comida representa.
O que torna Mills 50 difícil de explicar em poucas palavras é que ele não é um “bairro gastronômico”. Ele é um bairro com gastronomia como consequência de algo mais profundo: uma comunidade que ficou.
Com o passar dos anos, a primeira geração foi se aposentando, e a segunda e terceira geração trouxeram sua própria energia para o distrito, sem perder as raízes que os pais e avós plantaram. É esse ciclo que você sente quando caminha pela Mills Avenue. Não é nostalgia. É continuidade. National Geographic
Além do hub asiático, Mills 50 tem uma forte presença LGBTQ+ e uma cena de artes criativas ativa. Os murais espalhados pelo bairro fazem parte de um esforço da cidade de levar arte ao espaço público e aparecem em fachadas de prédios, caixas de controle de tráfego, muros que de outra forma seriam invisíveis. National Geographic
É um bairro que construiu identidade sem pedir licença.
O que você encontra quando chega lá
Alguns pontos de entrada para quem ainda não conhece:
Mills Market — o ponto de partida. O antigo mercado Tien Hung convertido em food hall com restaurantes Michelin dentro. Experimente o onigiri de frango crocante da UniGirl ou o banh mì do Bánh Mì Boy. Nenhum turista sabe que isso existe. Nenhum morador de Orlando que foi uma vez deixou de voltar.
Tori Tori — o bar japonês que virou ponto de encontro do bairro. Highballs com uísque japonês, pequenos pratos para compartilhar, yakitori de frango, croquetes de caranguejo. O lugar onde os moradores vão quando querem uma noite boa sem sair do bairro.
Sampaguita — sorvete filipino com sabores que você não vai encontrar em nenhum outro lugar de Orlando. Ube latte. Jackfruit com pimenta. Queijo com goiaba. É o tipo de coisa que para um segundo o seu dia.
Kaya — o único Green Star Michelin de Orlando. Uma cozinha que pensa em sustentabilidade não como marketing, mas como método. O bairro que recebeu imigrantes por décadas também está formando chefs que pensam no futuro.
O que Mills 50 diz sobre Orlando
Existe uma versão de Orlando que é inteiramente construída para ser consumida e esquecida. Os parques são geniais nisso, experiências totais, controladas do início ao fim, sem nenhuma fricção, sem nenhum acidente feliz.
Mills 50 é o oposto disso.
É um bairro que aconteceu. Que foi construído por pessoas com necessidade real, não por designers de experiência. Que acumulou história em cima de história até virar o lugar mais gastronômico da cidade, sem que a cidade inteira percebesse.
O nome oficial é “Mills 50 District”, derivado da intersecção das suas avenidas principais. Mas o que torna o bairro especial, segundo Joanne Grant, diretora executiva do programa Mills 50 Main Street, é uma coisa simples: “personalidade”. “É distinto e único. Não existe nenhum outro Main Street em Orlando igual a Mills 50.” Tastychomps
Personalidade é exatamente o que falta em boa parte do que Orlando apresenta ao mundo. E exatamente o que Mills 50 tem de sobra.
Orlando é a cidade americana que o Brasil conhece mais e entende menos. Todos já foram. Poucos realmente viram. Mills 50 é um bom lugar para começar a ver.
Crédito Imagem: City of Orlando


