Blue Ridge Parkway: a estrada mais bonita dos Estados Unidos que quase ninguém percorre de propósito

Existe uma estrada nos Estados Unidos que não tem posto de gasolina. Não tem fast food. Não tem outdoor de propaganda. Não tem trevo de acesso para rodovia federal. Você entra nela e o mundo externo simplesmente para.

São 469 milhas, ou 755 quilômetros, de paisagem contínua pelos Apalaches. Montanhas, florestas, vales, névoa nas manhãs de outono, flores silvestres na primavera, folhagem avermelhada que vira cartão postal em outubro. Trilhas que partem direto da beira da estrada. Campings que não precisam de reserva e ficam frios no verão mesmo quando o resto do país derrete.

Isso é a Blue Ridge Parkway.

“America’s favorite drive” — e quase nenhum brasileiro sabe disso

A Blue Ridge Parkway é a unidade do sistema de parques nacionais mais visitada dos Estados Unidos  e é chamada oficialmente de “America’s favorite drive.” Em 2023, recebeu 16,7 milhões de visitantes, um aumento de 6% sobre o ano anterior.

Dezesseis milhões e setecentas mil pessoas.

E quantos brasileiros você conhece que já percorreram a Blue Ridge Parkway de propósito? Não de passagem. Não como desvio rápido. Mas como destino, como a razão principal de uma viagem?

Eu não conheço nenhum. E entendo o motivo. A Blue Ridge Parkway não aparece nos roteiros de viagem para os EUA que circulam no Brasil. Não tem parque temático. Não tem outlet. Não tem uma cidade famosa no nome. É uma estrada. Uma estrada linda, histórica e extraordinária, mas uma estrada.

O problema é que quem trata a Blue Ridge Parkway como apenas uma estrada está perdendo exatamente o ponto.

O que é a Blue Ridge Parkway, de verdade

A Blue Ridge Parkway é o parque linear mais longo dos Estados Unidos, com 469 milhas de extensão, conectando o Shenandoah National Park na Virgínia ao Great Smoky Mountains National Park na Carolina do Norte.

Mas definição técnica não explica a experiência.

A construção começou em setembro de 1935, durante o governo Franklin D. Roosevelt, num projeto originalmente chamado de “Appalachian Scenic Highway.”  A ideia não era construir uma via rápida. Era construir um parque que as pessoas pudessem atravessar de carro, sem pressa, sem destino fixo, sem o ritmo acelerado que a industrialização estava impondo à vida americana.

O arquiteto-paisagista Stanley Abbott, influenciado por Frederick Law Olmsted, o mesmo que projetou o Central Park em Nova York e os jardins do Biltmore Estate em Asheville, sonhou criar um ambiente de parque, não apenas uma estrada.

E conseguiu.

A velocidade máxima na Blue Ridge Parkway nunca ultrapassa 45 milhas por hora, e em muitos trechos é menor.  Não há interseções diretas com rodovias interestaduais. Você não para no sinal para esperar o trânsito cruzar. Você simplesmente dirige. E olha. E para onde quiser, quando quiser.

São 300 milhas de trilhas partindo diretamente da estrada.  Você pode sair do carro, andar trinta minutos e estar num mirante que parece ter saído de outro século.

O que você encontra pelo caminho

A Blue Ridge Parkway atravessa 29 condados em dois estados, Virgínia e Carolina do Norte. São 27 túneis construídos em rocha sólida, 168 pontes e 6 viadutos.  O ponto mais alto fica a 6.053 pés de altitude — quase 1.845 metros, próximo ao Monte Pisgah, na Carolina do Norte.

As cidades que aparecem ao longo do caminho têm personalidade própria. Waynesboro e Roanoke na Virgínia. Boone e Asheville na Carolina do Norte, onde a estrada passa literalmente pela propriedade do Biltmore Estate.

Mas o que marca não são as cidades. São os momentos entre elas.

O mirante que você encontra no quilômetro 200 e onde para sem planejar porque a luz estava impossível. O café que funciona dentro de uma fazenda histórica restaurada. O mercado de artesanato local onde os músicos dos Apalaches tocam de graça numa tarde de sábado. O camping no alto da montanha onde a temperatura cai 15 graus em relação à planície e você dorme com cobertor em julho.

A Blue Ridge Parkway não tem atrações. Ela tem presenças. E há uma diferença enorme entre as duas.

Por que isso importa para quem vem do Brasil

O brasileiro que viaja para os EUA tem um padrão muito bem estabelecido. Orlando, Miami, Nova York. Às vezes Las Vegas. Eventualmente Califórnia. São destinos ótimos, e eu estaria mentindo se dissesse o contrário.

Mas existe um grupo cada vez maior de brasileiros que já fez esses destinos. Que volta aos EUA todo ano. Que quer algo diferente, mas não sabe exatamente o quê. Que sente que há um país inteiro entre esses pontos que nunca foi explorado de verdade.

Para esse público, a Blue Ridge Parkway é uma resposta.

Ela é acessível a partir de vários estados do Leste. A partir de Orlando, você chega à entrada sul da parkway, próxima a Asheville, em pouco mais de oito horas de carro, com uma viagem que por si só atravessa paisagens que valem. A partir de Washington D.C. ou Charlotte, a entrada norte fica ainda mais perto.

E o melhor: não há taxa de entrada. A Blue Ridge Parkway foi projetada para ser explorada.  O que você gasta é gasolina, alimentação e hospedagem e mesmo esses custos podem ser super baixos dependendo de como você organiza a viagem.

Quando ir, e por que o outono muda tudo

A Blue Ridge Parkway é bonita em qualquer estação. Mas existe um período que transforma a experiência em algo completamente diferente: o outono.

Entre meados de outubro e início de novembro, a folhagem dos Apalaches entra numa paleta de vermelho, laranja, amarelo e dourado que parece ter sido pintada à mão. Os americanos chamam de “fall foliage” e planejam viagens com meses de antecedência para viver esse fenômeno. Para quem vem do Brasil, onde as estações não produzem esse efeito visual, é um impacto que não tem comparação.

Os campings ficam movimentados nesse período, mas a estrada continua sendo a estrada. Lenta, contínua, inevitavelmente bonita.

A primavera também tem sua beleza: flores silvestres cobrindo os Apalaches, temperaturas ainda amenas e trilhas com pouca gente. O verão é a temporada de quem quer escapar do calor, a altitude garante temperaturas que parecem de outro país comparadas ao que acontece na Flórida em agosto.

Slow travel não é tendência. É uma decisão.

Fotografia: William A Bake

Existe uma palavra que reaparece toda vez que alguém descreve a experiência na Blue Ridge Parkway: lentidão.

Não no sentido negativo. No sentido de que você se permite desacelerar de propósito. Que você dirige sem saber exatamente onde vai parar. Que você come onde a comida aparece, não onde o aplicativo mandou. Que você dorme ouvindo o vento nos pinheiros e acorda sem alarme.

Num país construído sobre a lógica da velocidade, onde tudo é fast, onde a eficiência é virtude, onde o tempo é sempre recurso escasso, a Blue Ridge Parkway existe como objeção deliberada a tudo isso.

E essa objeção deliberada é exatamente o que muita gente está buscando numa viagem hoje.

Uma estrada que o mundo conhece e o Brasil ainda vai descobrir

A Blue Ridge Parkway é chamada de “America’s favorite drive” há décadas.  Dezesseis milhões de americanos percorreram algum trecho dela em 2023. É o parque nacional mais visitado do país.

E ainda assim, quando você fala “Blue Ridge Parkway” para a maioria dos brasileiros, o que você recebe de volta é uma expressão de dúvida.

Isso vai mudar. Porque o perfil do viajante brasileiro está mudando. Porque os destinos óbvios já foram feitos. Porque existe um apetite crescente por experiências que deixam algo além das fotos.

E porque algumas coisas simplesmente precisam ser vividas para ser entendidas.

A Blue Ridge Parkway é uma delas.

Fonte: National Park Service — Blue Ridge Parkway

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